23 de maio de 2021

Chás e encruzilhadas

Durante um tempo tentei explicar que o caminho rumo aos chás era menos por eles e mais pelo café, embora os chás que buscava fossem sem estimulantes. Não é em fato um percurso acordado, óbvio, é muito mais um percurso de fuga, disparada, corrida desembreada por novas marcações. Meu corpo não aguentava mais as doses estimulantes da cafeína. 

Como de costume a gente tenta se autoexplicar pela negação que é uma das vestes da rejeição, e então durante algum tempo acreditar que meu sistema neurológico rejeitava a cafeína foi a primeira e mais imediata justificativa. Acontece que a cafeína não me trazia o imoderado porque o corpo não digeria, muito ao contrário, meu corpo digeria com tamanha fome e prazer o café que a reações bioquímicas moleculares elevavam os sistemas neurológico e intestinal a níveis grandiosos de potência ativa.

Isso quer dizer que o trajeto na direção dos chás tratava, e ainda trata, de uma fuga pelo excesso afirmativo da digestão ativa do café no meu corpo. Veja esse processo como um encontro afetivo de moléculas no corpo que ao encontrarem as moléculas recebidas do café, se excitam de tal modo que a cada encontro elas implodem. Não se mantinham quando do encontro enquanto moléculas de antes e moléculas do café. Não havia nem antes e nem depois conservados no encontro. Acontecia  uma implosão sem rastros.

Foi essa implosão que repetidas vezes exigiu sobremodo do intestino e dos neurônios, cujos hormônios neurotransmissores ao serem convocados para a implosão não encontravam modelos do que fazer e de como fazer, quer dizer, não havia rota clara de digestão, o que mostrava bem o quão a implosão era magna ao ponto de incluir sem modéstias hormônios e neurotransmissores, o que indiscutivelmente interferia nas percepções e elaborações corporais que me produziam.

chá de lascas de açafrão com unha de gato

O fato é que buscar o encontro com os chás não foi por acaso, nem tampouco por desinteresse (aliás, como todo encontro, sempre há interesse), o desejo quase pouco revelado era fugitivo dos encontros implosivos com o café. 

Fuga afirmativa do corpo que não alcançava em termos moleculares tamanha força atemporal que fazia de cada xícara o começo de novas rotas criativas. Intestino e cérebro se desmanchavam, concentravam suas energias com foco obestinado naquele encontro enquanto outras demandas corporais anunciavam sinais de enfraquecimento, já que o corpo na sua rede complexa movia forças de regiões distintas para concentrar numa única localização atual (do exato encontro, do agora, do presente, do momento) as atividades carnais. A cada café era a criação de uma região temporária e nova (daí originária, original, genética de gênese) no corpo, cuja memória daquela carne não sabia como proceder a cada vez que a região temporária se constituía sem repetir o que já teria sido noutros encontros passados. O encontro criava um corpo temporário dentro do corpo, e enquanto temporário exigia para si as forças das outras regiões que há tempos estavam memorizadas. 

Dupla afirmação: digestão afirmativa e criação de um corpo sem precedentes dentro do próprio corpo. Criação e destruição do corpo na sua latência não física apenas possível de ser explicada e compreendida na linguagem fisiológica, com palavras do bio em operação.

O café nesse sentido não fazia mal para o meu corpo, ele provocava justamente um ritmo térmico corporal que ultrapassava os limites das caixinhas orgânicas do organismo. Implosão. Estouro. Rompimento. Arrebentamento. Criação. O sistema neurológico suportou por longos anos cada encontro na sua singularidade, porque cada café varia de acordo com o grão, a temperatura da água, o clima do ambiente, assim como ele, as próprias composições moleculares internas do corpo também são singulares porque estão conectadas à nutrição dos dias anteriores.

No findar de 2017 o corpo se afirmou, chorou, gritou, vociferou até que os códigos arbirtrários da inteligência fossem atravessados por sinais corporais. Foi necessário tempo de dor para compreender que os deslocamentos não se fazem unicamente por negação, se fazem também por afirmação. 

Buscar os chás como nova possibilidade de reencontrar o café na sua potência que marcou meu corpo: os limites não são as caixas que enquadram e sim as regiões temporárias que se recusam a existir como uma única determinação, muito mais, são temporárias justamente por se afirmarem indeterminadas e portanto, insubordinadas.

Sim, são os chás na encruzilhada dos contínuos cafés sem necessariamente demandar o aniquilamento da memória viva que traz consigo as implosões.

(texto motivado pelo comentário do meu irmão Davi: "que vício é esse por chá?". E eu que aparentemente só consegui me distanciar do café no tempo que dei a mão para os chás. Ao menos por alguns instantes.)

Carol Gomes

7 de julho de 2020

Cultura da mesmice = Mono-cultura


Nesse prato aí tem: batata doce assada com pimenta calabresa; antepasto de berinjela com pimenta branca e rosa; ricota de macadâmia com óregano, alho e azeite; shitake com cebola, alho, uva passa preta, tomilho; pesto de manjericão; queijo holandês rembrant; queijo brasileiro tipo gorgonzola; queijo brasileiro parmesão. Ponto.

Em termos quantitativos é pouco, é reduzido, é mínimo. Inversamente, em dimensões qualitativas no que diz às singularidades, é infinitamente gigante, múltiplo, diversificado. Entre os queijos, entre os encontros do alho com cada uma das pimentas. É diverso no escorrer do azeite prensado a frio com o manjericão colhido na horta cujas folhas foram amassadas secas para não atrapalhar na remolecularização. A macadâmia 12 horas de molho, lavada com água filtrada para abraçar o orégano (tudo bem, ele estava fresco). O acompanhamento: vinho Tempranillo e água com gás e limão.

Era uma vez uma cultura como filha do cultivo. Acontece que a amplitude do verbo cultivar foi tão sufocada pelo reativo monocultivo agrícola que a filha deixou de ser MUITAS em potência e hoje é apenas UMA em ato.

Monocultura do pensamento. Monocultura da alimentação. Monocultura das roupas. Monocultura do cabelo. Monocultura do estudo. Monocultura de cinema. Monocultura de música. Monocultura de cheiro. Monocultura de arquitetura. Monocultura de carro. Monocultura de atividade física. Monocultura de vida. Monocultura dos atacados (compro muito do mesmo produto). Mesmice aguda é nome chulo para monocultura de existência. Para não dizer a famosa: caretice!

Com direitista nem converso. Tempo é precioso. Agora tenho aprendido que conversar com esquerdista que só como carne, arroz, feijão, macarrão e farinha de trigo enformada com ovo e fermento químico, não chega a ser perda de tempo, embora não mais que girar em torno do próprio rabo.

Resistência já não é mais apenas consciência de classe, é muito antes e muito mais: se habitar por escolhas das multidões, sobretudo das muitas-multidões-culturais. Nem fino, nem luxuoso, as multidões são das épocas, dos tempos de ontem e dos agoras, das matas, dos quintais, das cozinhas de comidas e não das prateleiras dos hipermercados com produtos que o dinheiro ludibria.

Mais comida, menos produto!
Mais cultura, menos monos!

Carol Gomes






11 de dezembro de 2019

Carta a meu amigo Davi Miguel


Triângulo Mineiro, 08 de dezembro de 2019.


Meu amigo Miguel,


Como você está? Faz algum tempo que queria ter enviado essa carta, mas sendo bastante sincera, assumo que a correria dos dias não deixou. Além da correria, tem muita coisa acontecendo que por vezes não nos dá tempo se quer de ruminar, digo, de refletir, tamanho impacto cuja única atordoada manifestação dos olhos expressivos é: inacreditável!

Preciso te contar uma coisa muito importante para que você vá se organizando ante as colheitas vindouras. Vou direto ao ponto.

Você já sabe que alguma coisa muito estranha e ruim anda acontecendo na vida humana, e que isso tem tomado formas contagiosas. Acontece que não é algo fácil de ser percebido e acompanhado, são ações praticadas diariamente em todos os ambientes, incluindo o popular ambiente da escola.

O ponto é esse: até na escola. Explico melhor. Você ainda não teve aula de filosofia, que é uma maneira humana de pensar a existência. Essa maneira é tão antiga que ao pé da letra nem data certa de nascimento a gente encontra, porque diz respeito ao primeiro momento em que um ser humano se vendo como uma pintura, como uma escultura, como uma nota musical ou enquanto uma personagem faz as perguntas: Quem sou? O que sou? Como sou? Por que sou? Para que sou? Vou por aqui ou por ali?

Essa maneira humana está sendo retirada a conta gotas da escola, isso quer dizer que você vai continuar fazendo as perguntas, porque a filosofia não depende da autorização de ninguém para ser viva, mas, por outro lado, quer dizer que você não terá mais o direito de saber quais foram as respostas que as outras pessoas que viveram antes de você conseguiram dar para as mesmas perguntas.

Hoje pode parecer que não ter conhecimento das outras respostas é algo insignificante para suas escolhas profissionais, mas atenção, preciso ser sincera com você: não há nada na existência que possa ser feito sem um gesto de pensamento humano. Sabe por quê? Porque o seu pensamento é um corpo assim como são os seus olhos, seu coração, portanto, se você sente o mundo, necessariamente você vai pensar. Se a gente pensar sem saber o que pensam e o que pensaram as outras pessoas, o resultado disso é que a vida perde o sentido, pois aí você se anula, já que não terá as outras existências para mostrarem que você próprio é uma existência.

Entende o que estão fazendo ao tirar pouco a pouco a filosofia da sua vida?

Essa carta é para te dizer que aos poucos e disfarçadamente estão te tirando o direito de existir, na medida em que tiram seu direito de pensar o que pensaram as outras pessoas.

Tenha certeza que não é nada fácil escrever uma carta te falando desse assunto, muito pelo contrário, é tão difícil quanto a saudade que sinto de você nos meus dias, assim como é difícil te ver chorando quando criança, te ver correndo assustado do cachorro da vizinhança. Sabe, meu amigo, a gente sempre vai viver desafios na vida. Faz parte e inclusive nos fortalece, e é por isso que em todos os espaços defendo seu futuro, não porque eu tenha um modelo correto de destino, porque na verdade é você quem constrói seu futuro desde sempre. A mim cabe com a delicadeza de te admirar desde criança pequenina com os olhos pretinhos e arregalados, lutar com disposição para que você tenha o direito de saber da história humana, dos vários feitos, incluindo os pensamentos, as dúvidas e as investigações reflexivas da existência.

É importante você saber que nesse último ano lutei muito por seus direitos, por seu direito de ter acesso à filosofia, à reflexão, à leitura, aos diálogos sobre a vida. Lutei e assim continuarei, por seu direito de ter dúvidas sobre a existência, porque é duvidando e buscando o pensar que você continuará se fazendo esse jovem altivo, disposto e forte que tanto nossa humanidade carece.

Em silêncio e de longe sigo lutando por você, por mim, por nós!

Até logo,
Carol

4 de dezembro de 2018


Dispositivos Coreográficos:
(des)posando efeitos de (des)controles

Por Carol Gomes
Doutoranda em Filosofia/UFPR
Profa. Filosofia IFTM


Palavras sobre um espetáculo para quem não o viu e para os que viram com outras lentes
Talvez um dos mais imponentes desafios do estarmos contemporâneos é não se fechar no modelo longínquo clássico do par causa-efeito. A causa como fonte primeira, fundante e por certo inquestionável como verdade. Isso não quer dizer que não haja causa e que tudo é efeito, e que portanto o contemporâneo é um decalque caótico e não emancipado do saber moderno. Não, a provocação é simples e despretensiosa. É apenas começar a aceitar o óbvio como óbvio. Decompor as existências com base no que temos delas, partindo disso que delas chamamos de efeitos. Como é que tenho acesso à fala de uma pessoa, se não pelas palavras ou expressões que ela emite? Não tenho acesso à causa, ao porquê imediato daquela fala. Parte-se dos efeitos das palavras, dos gestos, das temperaturas e dos cheiros para daí compormos a causa do que se passa entre essa quem me fala e essa pessoa quem ouço. É isso. Os efeitos como o que de fato tenho acesso e através dos quais tenho as existências, incluindo eu mesma. Nada novo o que digo, lá nos anos de 1600 um pensamento tal já nos ensinava isso, como ensinou a Nietzsche, Foucault, Deleuze, por exemplo[1].
Pois bem, a mim o espetáculo Dispositivos Coreográficos, na apresentação de estreia e abertura do Festival Paralela 2018[2], trouxe justamente a previsibilidade de viver como modo de existência óbvia. Ora, não há segredos, pulos do gato, magias impenetráveis do pensamento e das criações artísticas. Há corpos e não por acaso são esses os corpos do Provisório Corpo – Grupo de Dança, sob direção e concepção de Ricardo Alvarenga. A magnitude do espetáculo se deu lentamente, ou seja, foi crescendo do início ao fim, um construto de efeitos cuja causa se completa ao término de cada bloco de repetição. Causa como resultado, como produção, efeitos tomados de corpo em corpo, como corpo a corpo ao longo do espetáculo enquanto criação mecânica e maquínica.
Vi corpos se fazendo dança de moléculas e em plasticidades, portanto biológicos. Vi corpos em movimento como deslocamento contínuo de repetições espacializadas, portanto físicos. Vi corpos como elementos distintos se implodindo juntos, portanto químicos. Vi corpos grafitando o espaço infinito entre 1 e 1,0001... dos palcos, internos e externos, portanto matemáticos. Vi corpos fêmeos, machos, trans, negros, brancos, portanto políticos. Senti com os olhos os movimentos, os repousos (embora tenham sido poucos), vibrações térmicas e auditivas, portanto sensações.
Um espetáculo com 16 dançantes, entre dançarinas e dançarinos, começou com alguns poucos no palco e os demais chegaram vindos dos corredores entre a plateia. Cada corpo nesse instante já era mais que um corpo em forma estática, àquela altura era movimento ritmando e desritimando moléculas, linhas e retas abstratas da matemática, ondas de luz, matérias de som, relação entre movimento e repouso continuamente, por isso corpo-dança. Os corpos-dança se colocavam todos numa mesma série, melhor, num mesmo bloco de movimento repetitivo. Mas veja bem, como toda repetição, poderíamos ter o repetitivo apenas como infernal, o mesmo infinitamente sem parar. O corpo mecânico de articulação em articulação reproduzindo o mesmo gesto: erguem as pernas, erguem os braços, coluna ereta, sentido para frente, para traz, para cima, para baixo, e assim uma reprodução marcada por sinalizações de tempo dadas num espaço indicado mentalmente pelos próprios ensaios da produção coreográfica. Mas não, o que parecia menor da dança, justamente essa repetição, implodiu cada corpo individual afirmando uma menoridade específica de dançante por dançante conectados uns aos outros. Em outros termos: o corpo individual que de maneira mecânica reproduzia os movimentos, se conecta exatamente através da repetição com os outros distintos corpos também individuados. É essa conexão, essa relação entre corpos individuados e distintos que maquinicamente produzem um corpo agora sim maiorizado numa noção comum estabelecida entre os corpos enquanto se davam as repetições. No espetáculo, portanto, não é possível ver um grupo maior dançando sem ver cada corpo na sua menoridade individuada, nem tampouco, é possível ver individual sem o todo. A repetição dos movimentos mecânicos, avolumados na luz, ritmados em matérias musicadas, revestidos de tecidos recortados e recosturados para cada corpo impôs um maquinismo desposado dos controles de poder. O que havia de comum produzido maquinicamente a partir de uma repetição mecânica, trata justamente de uma causa produzida pelos próprios corpos. Veja, ‘causa produzida’ pelos corpos, qual seja, o controle político de existências. Portanto, nada mais contemporâneo e preciso em pleno 2018, um espetáculo cujos corpos desvestem os dispositivos, ordinariamente invisibilizados como produções de controle. O que Ricardo Alvarenga, os 16 corpos dançantes e toda a equipe de produção nos deu, foi um desposamento do segredo das vigilâncias de controle a partir dos seus efeitos nos corpos individuados sempre conectados nas sociabilidades.

Não bastassem o mecânico e o maquinismo conectados realizando efeitos que implodem como causa os controles políticos dos e nos corpos, Dispositivos Coreográficos avança e ao sair do quadrado do palco italiano lança todos os corpos, veja bem, todos os corpos para fora do teatro. Que operação maquínica é essa? Passados cerca de 30 minutos de espetáculo, entram no palco alguns corpos rígidos estranhos ao bloco das repetições. Esses corpos abrem as portas de metal do fundo do teatro, como que abrindo numa plasticidade metálica as cortinas do palco visto do lado contrário, de fora para dentro, embora estivéssemos todos do lado interno. Naquele instante o espetáculo nos colocou contraluz de nós mesmos. Se antes éramos dançarinos no palco com a plateia bem definida no seu lugar frontal do palco italiano, ao abrir as cortinas metálicas, éramos todos naquele instante corpos docilizados assistidos por uma tecnologia de captação de imagem: um drone. Sim, as cortinas se abriram e imediatamente subiu um drone que filmava a todos, dançarinos e plateia. Vigilância. Qual corpo se conectava repetidamente a quais outros corpos agora? Estávamos todos na repetição, mecânica e maquínica. Éramos todos partes de uma produção cujos dispositivos já não escondiam seus corpos. O drone se mostrou e nos captou como efeitos, não bastasse, nos lançou como sínteses em imagens na parede externa do próprio teatro. Enquanto dançarinos saiam do palco e nós, a plateia, saíamos para a parte externa, quem nos via na parede externa captados e imediatamente projetados como imagem? Quens corpos nos viagiavam?! Esses minutos ainda parecem condensados em energias dos controles de poder. Quem nos controla? Uma vez mais Dispositivos Coreográficos desnudou a partir dos efeitos as causas produzidas dos controles. A brandura dos nossos corpos conectados fabricando os controles como causas resultantes de nós mesmos ao que chamamos razão humana emancipadora. Para quais existências cultivamos tanto controle?
No piso externo do teatro, de frente para o projeto arquitetônico do Niemeyer e nele todos os corpos sendo projetados, visualizávamos marcações em amarelo no chão que grafavam uma centralidade para os dançarinos. Nas laterais a estrutura metálica com os refletores de iluminação circular, uma composição de luzes coloridas com rodinhas girando dentro de uma grande roda (quase um Tempos Modernos com Carlitos sendo engolido pelas traquinagens da fábrica), a música numa sintetização alucinante que colocava em matéria os pixels dos digitais, o binário controlador estava no cenário como música, como onda material alucinando os corpos nas séries de repetições. Acima dos corpos, o drone com seu som tecnológico de uma engrenagem que lembra muito um grande mosquito que vê tudo; mas veja lá, o mosquito vê, porém o drone, vê, conserva, acumula e projeta as imagens. Uma coisa é sermos vistos ininterruptamente por outras tantas existências (os outros seres vivos e inorgânicos nos veem), outra coisa é fazer uso simbólico e portanto político do que se vê. Estávamos todos vendo e todos nas suas individuações sendo vistos e projetados instantaneamente.
Me perguntava pela relação entre as séries de repetição dos dançarinos e a captação e projeção das imagens de todos nós. Há também uma relação de repetição entre as imagens quando do processo de captação, acumulação, sequenciamento e projeção dessas imagens. O drone repetia esse processo escancaradamente no espetáculo. Um desvelamento direto do controle. Há uma distância temporal que é preenchida por acumulação simbólica (imagens acumuladas, lembranças) entre os atos do dispositivo de captar, acumular, sequenciar e projetar. O que se coloca nos intervalos entre cada um desses 4 atos é o que produz os controles!? Um dentre tantos aspectos que o espetáculo desnudava evidenciou o dispositivo numa autonomia política ao estabelecer relações entre os corpos dançantes e os corpos espectadores. Se havia distinção até então, com a entrada do drone na cena, todos passamos a personagens, estrategicamente captados, acumulados, sequenciados e projetados, portanto, deliberadamente controlados.
Um drone repete séries de captação dos instantes temporais, mecanicamente há um movimento de sequenciamento de imagens, o famoso modelo do cinema de 24 fotogramas por segundo para nos dar uma imagem em movimento. Para além dessa técnica mecânica, há ainda um maquinismo da tecnologia que se faz ao conectar a função específica de cada parte do corpo-drone: as lentes ampliam, reduzem, aproximam, distanciam, fecham ou abrem a cena. O diafragma e a velocidade com que abre e fecha controla a quantidade de luz, portanto o realismo e o ficcionalismo na profundidade da imagem e isso implica na multiplicidade de planos dentro de uma mesma cena que remete à presença de infinidades dentro de uma única imagem. Aqui então retornamos à relação produtora dos efeitos para com a causa. Se inicialmente tomávamos os corpos-dança como os dispositivos de produção da causa de controle, num segundo momento quando da virada do espetáculo que se deu no ambiente externo, vimos um corpo-drone produzir essa causa controladora a partir dos efeitos em relação dada nos e entre os corpos humanos (dançarinos e público), bem como os corpos matéria de ondas de som, corpos energia de ondas luminosas e grafias em roupas e marcações espaciais no chão.
Foto: Carol Gomes
Desvelados os efeitos produtores de causas de controle, Dispositivos Coreográficos, traz com corpos-dança uma estética do comum construída do que se passa entre individuais na efetuação de um corpo-todo seriado em repetições. É por isso que dentro das séries repetitivas, em vários momentos escutamos gritos e inclusive visivelmente corpos se contorcendo como se estivessem numa pane (como os androides-humanizados de Blade Runner: o caçador de andróides). Isso sim são as fissuras dentro das repetições mecânicas e maquínicas de controle. Se concluímos que o controle é fabricação de corpos conectados, não excluímos que essa própria fabricação traz consigo o germe das panes, das fissuras, dos buracos sem fundo ou das atonalidades de territórios desconhecidos dentro das geografias mapeadas. No interior da repetição as diferenças atormentavam, dentro da dança o movimento claramente definido como harmonia corporal trazia brechas e vácuos para instantes quaisquer de quebras do controle. O corpo sozinho de um dançarino aqui, outro ali, outro acolá, se contorcendo dentro da própria série repetitiva era o suspiro do corpo dizendo que ele poderia muito mais, ao ponto de em si mesmo desconhecer as forças resistentes e potentes do agir.
Dispositivos Coreográficos colocou corpos dançando, ergueu corpos-dança, desposou dispositivos de controle como causas produzidas dentro dos efeitos de corpos, portanto realizados e alimentados pelos corpos-sujeitos assumidos por si mesmos como corpos-objetos controlados. Os quens foram postos nos palcos, dentro e fora, do teatro e de nós mesmos. Vimos e fomos vistos. Olhamos e fomos olhados. Movimentaram-nos na coreografia daquilo que criamos como símbolo da emancipação humana, justamente para nos confrontarmos frente a frente com os controles e a potência fissuradora do poder de um corpo. 



[1] Me refiro a Spinoza no livro Ética publicado em 1677, bem como aos capítulos Visão ética do mundo e As noções comuns de Deleuze no livro Espinosa e o problema da expressão de 1968.
[2] Apresentação única no Teatro Municipal de Uberlândia em 28 de novembro/2018.

3 de outubro de 2018

panfletando o coração com ponteiros de um relógio de primavera

não me afobe no 1º dia
não se afobe no 2º dia
não te afobo no 3º dia
não nos afobemos no 4º dia
não te afobes no 5º dia
não nos afobem no 6º dia
não se afobem no 7º dia
não a afobe no 8º dia
não as afobem no 9º dia
não lhes afobem no 10º dia
não se nos afobem no 11º dia
não vos afobeis no 12º dia
não afobe no 13º dia

afobe-me no 14º dia
afobe-se no 15º dia
afobe-te no 16º dia
afobe-nos no 17º dia
afobem-se no 18º dia
afobem-na no 19º dia
afobem-se no 20º dia
afobem-lhes no 21º dia
afobar-lhes-ei no 22º dia
afobar-nos-íamos no 23º dia
afobar-me-ei no 24º dia
afobara-me no 25º dia
afobaras-te no 26º dia
afobamo-nos no 27º dia

e nesse último dia
afobaram-se
todos os dias
da primavera futura

e nesse primeiro dia do futuro
afobaram-se
os olhos olhando e cheirando
os 27 dias passados

e nesses dias de agora
afobam-se
os sentidos todos
porque não os são
esses 27 dias
são aqueles recontados
esparsos na memória
onde se afobam
todos os dias
de imprecisos 5 anos

(dos afobamentos de um coração descaradamente afobado que ama)
Carol Gomes

12 de setembro de 2018

Biblioteca, 12 de setembro de 2018.
(Período em que no cerrado-sertão mineiro os ipês roxo e amarelo já floriram e os brancos florem).

Um senhor senta na mesa a minha frente. Chegou com as mãos livres, apenas com uma garrafa de água, sem caneta e nem papel.  Deixou a garrafa na mesa e foi até as prateleiras pegar um livro. Voltou. Sentou. Abaixou a cabeça e começou a leitura. Camisa quadriculada e cabelos grisalhos.

Quando o avistei entrando no salão de estudos, pensei: o que faz uma pessoa frequentar bibliotecas?! Sem respostas e elucubrações delongadas retomei meu estudo.

Depois de 1 hora, levantei para abastecer a minha garrafinha de água.  Saí em direção ao lado esquerdo da mesa. Não por deliberação voluntária e sim por afeto involuntário do meu corpo.

Fui. Voltei em menos de 3 minutos. No retorno mudei a direção e segui pela direita. Cheguei à mesa. Sentei.

Passados 5 minutos o homem grisalho começou a se contorcer olhando para trás. Pensei: Coitado, começou a conflitar as faculdades. Noutros termos: começou a dar pane de leitura.

Imediatamente ele virou todo o corpo para trás e disse: "Eu não te vi voltando. Tenho amnésia". Virou para frente e aparentemente sossegou.

Eu que sou defensora das bibliotecas como pulmões das urbanidades, fui logo concluindo que o senhor era mais um entre tantos que vão para as bibliotecas para dessufocarem, seja ou não são ou louco. Incluindo eu.

Eis que o homem se vira novamente e num tom de relato interativo em prol da sociabilidade (dois anônimos no meio de um tanto de livros mudos) diz que foi aposentado porque tem amnésia do lado direito. Olhando fixo para mim com parte do tronco e do pescoço contorcidos na minha direção pergunta: "Você voltou pela direita, né?!".

Respondi me apressando no pensamento que ele ia querer conversar sobre amnésia e eu iria escapulir como?! "Sim, voltei pelo lado direito".

"Ah bom, porque te vi indo mas não me recordo de você voltando. Qual sua religião?".

Eu: Minha região? (Já enchendo o peito para dizer Minas Gerais quem te conhece não esquece jamais).

Ele: Não, sua religião.

Eu começando a palpitar inquietações: Não tenho religião (deveria ter respondido: Lulista religião emancipadora e não-ascética. Na próxima vou lembrar dessa).

Não ter religião foi a resposta mais resolutiva porque até conseguir explicar a ele que para mim as árvores conversam e que o universo conjura tudo em todos ao mesmo tempo e por isso sou divindade tanto quanto a florzinha amarela do ipê apaixonada pelo verde da trepadeira que vive na árvore ao lado, as outras pessoas certamente nos chamariam atenção reivindicando silêncio.

Ele com um espanto e mudo se virou para frente e pronto.
Ele mudo em fala e eu tagarelando em pensamento: vixe, agora esse senhor se levanta e me questiona ou começará a me catequizar. "Nenhuma e nenhoutra" das opções diretamente, mas o seu silêncio, os seus cabelos grisalhos, as costas e sua cabeça abaixada sendo sustentada pela mão  (evocando Rodin e o pensar como verbo em mármore de corpo macho) me inquietou diante da relação amnésia e direita.

Se meu corpo se lançou involuntariamente em direção à esquerda, a memória dele por sua vez recusa a direção direita.

Para finalizar a pausa ergonômica de relaxamento da cervical, concluí com uma questão imprópria e desnecessária:

No que e n'onde encontramos como diferentes e como semelhantes no involuntariado do corpo para esquerda e na amnésia da memória para a direita?

Se não há ficção, indiscutivelmente não existiriam bibliotecas reais, nem de esquerda e nunca de direita. Uma como direção topológica-territorial e outra como memória sem direção e portante apenas e tão somente como espectro.

(foto de ficções como fragmentos de realidades não verdadeiras e tão belas justamente por serem falsas).


8 de janeiro de 2018

Segunda-feira de janeiro de 2018, 6:45, chuvinha calma, passarinhos cantarolando na mangueira e a cabeça atinando para a jornada cujas demandas cotidianas pululam.

8:30 eis que um país inteiro te solapa em pouco menos de 5 minutos. Posto de combustível com gasolina a 4,39 e álcool a 2,88. A promoção é única e nenhum outro lugar da cidade com 700 mil habitantes alcança essa façanha, e o mais próximo concorrente ficou longe pedindo 4,65 na gasolina. Quando tem promoção não há titubeio e a fila de espera para encher o tanque é quilométrica.

9:05 de frente para bomba, os olhos se inquietam entre a pistola de onde sai gasolina, álcool ou diesel e o painel que cronometra a relação entre preço e litros. Em segundos a retina recebe estímulos de prazer e de dor, de conservação e de ameaça, pois a pistola em pleno funcionamento é sinal de tanque cheio e mobilidade garantida com o tanque do carro cheio, mas a cada jato da pistola o cronômetro roda e inversamente diminui as notas da bolsa ou o limite do cartão. É isso que um posto de gasolina não tarda em ensinar, quiçá ensinamento mais direto que quaisquer aulas de proporção inversa, pois mesmo o mais romântico ou o mais bobo ser humano percebe que quanto mais a pistola libera líquido combustível, menos dinheiro se tem na poupança. Mais combustível, menos dinheiro; ou, menos combustível, mais dinheiro; ou, mais locomoção sem aperto e atrasos de ônibus, menos dinheiro; ou, mais tanque cheio, menos economias, e assim vai a relação inversa, altera-se as variantes e a relação inversa permanece. O fato é que à fórmula imperecível outros tantos fatores são conectados, por exemplo: se você opta por menos pistola funcionando e portanto menos combustível no carro, o desdobramento é que a locomoção no automóvel deverá diminuir, e considerando que não é possível viver isolado em casa, o próximo desdobramento é se locomover a pé, de bicicleta, transporte público ou outro modo: uber, táxi, carona. Se na opção da locomoção à pé ou da bicicleta os gastos diminuem, em contrapartida numa cidade com ausência ignorante de arborização, a economia no combustível custará gastos na proteção da pele e com calçados para longas caminhadas. Se a opção é por transporte público: dispensa comentários. Se a opção é uber, táxi, experimente ir ao trabalho a 30 quilômetros de casa calculando ida e volta diariamente. Se a opção é carona, considere as instabilidades, afinal carona é carona e não prestação de serviço. Disso tudo esqueça o fator segurança, sobretudo quem optar por bicicleta e ou caminhadas.

Pois bem, passado esse momento de reflexão lucífera (seja por evocar a luz ou por evocar ação do anjo decaído), os olhos estimulados não se aquietam e se lançam no envio de estímulos ao sistema nervoso que solicitará outros dispositivos do corpo para atuarem diante da relação inversa que funda as atividades lucrativas das redes de combustível.

- Bom dia moço, tudo bem?
> Tudo bem.
- O senhor completa por favor com álcool?
> O álcool está em falta, só temos gasolina e diesel.
Em fração de segundos o cérebro dispara: diesel? Isso é para motor grande. Álcool em falta? A festa acabou.
- Mas moço, como assim não tem álcool?
> É minha filha, tem 2 dias que não chega álcool, e nos disseram que a Petrobrás parou de liberar álcool.
- E tem previsão para retornar?
> Não, não tem previsão.
O olho fixa na marcação do painel no carro com a luz da reserva já acesa e delibera:
- Coloca 100 reais de gasolina, por favor.
> Ok, 100 de gasolina?
O cérebro trabalha em silêncio: é né, você reproduzindo essa conversa furada do dono do posto para justificar gasolina com esse alto preço e segurando álcool para nos próximos dias reajustar o preço absurdamente.

Nesse interim a pistola começa a trabalhar e libera gasolina no tanque. A máquina começa a liberar o som do líquido sendo injetado e em pleno movimento em direção de partida da bomba para o tanque do carro. Enquanto isso o diálogo vai tomando rumos que todos conhecem embora por mistérios lucíferos (olha a luz ou anjo aqui novamente) os responsáveis não se assumem e muito menos não se dignam à correção.
- Pois é moço, muita gente me disse em 2016 que o problema era a mulher?
> Como assim a mulher?
- O país era governado por uma mulher e por isso estava tudo caminhando para a falência. O problema é que quando ela estava governando a gasolina era 3,30 e não faltava álcool na pistola.
> Pois é.
- E agora?
> Agora é trazer ela de volta.
- Entendi. Obrigada. Vou ao caixa pagar.

3 de janeiro de 2018

Ao garçom os jilós. Ao coletivo meu projeto. À chuva meu "como"

Esses dias findantes de 2017 estava eu em um bar com os amigos, aliás, as amigas, para tomar água com limão e gelo e escutar a geração lá-lá (que ficou conhecida por Clube da Esquina). Nos organizamos assim: alguém chega antes e pega uma mesa farta para umas 10 amigas e vai lá, um marido gente fina da amiga retrô-vintage estilosa no cabelo look orange.;-)Descoladíssima.

Pois bem, a amiga dos cabelos livres e com cachos exaltados levemente amarelos (chamam de louro) chegou cedo e nos apanhou uma mesa na parte limite da cobertura anti-chuva, afinal, embora não sejamos açúcar, também não precisamos ficar ensopadas pós um 2017 de tanta merda com dinheiro público. Talvez tivesse começado aí a matéria da narrativa: o limite.

Fomos chegando em dupla, em trio, todas com suas doses de folie refinada. Tá certo que algumas amigas tem doses exageradas de loucura, assumo inclusive que por vezes me pergunto: uai, será que ela não é mesmo louca? essa fase dela é nova para mim, tão evidentemente não comum que me faz sentir a primeira das últimas jovens caretas aos 34 anos. Sou velha mesmo, oxalá velho sempre em mim.

Começamos a pedir ao moço as bebidas e a singularidade começou de cara: "Moço, por favor, uma caipirinha sem açúcar". A outra: "Para mim também, sem açúcar, igual a dela". Eu timidamente como uma velha criança: "Para mim uma água sem gás com gelo e limão, por favor". O moço anotou no papelzinho e saiu. Imediatamente perguntei para as loucas em doses aparentemente equilibradas: "Gente, caipirinha sem açúcar? Nunca vi isso. Vai virar água com pinga e limão". Uma respondeu: "Sempre pedi assim". A outra disse resoluta e tranquila: "Só colocar adoçante, eu faço isso". Pensei: Vixe, adoçante?! Mas vai lá, quem era eu para pensar na caipirinha sem açúcar tendo pedido água sem gás com limão e gelo. Cada qual com seus métodos. E vieram mais uma meia dúzia de caipirinhas sem açúcar, águas com limão e gelo, cervejas artesanais (transbordando glúten), porções de jiló frito maravilhosas e mandioca frita. E quem veio também para o show e diversão toda? A CHUVA. Reinando linda e maravilhosa, imperatriz carlota joaquina mineira.

Assim que a chuva chegou, o LIMITE que já não era mais a caipirinha sem açúcar deu vistas ao que tomei para mim como o signo mais direto da decadência da esquerda no Brasil. Vamos lá.

Um senhor na mesa ao lado estava territorializado na parte outra do limite que não era nem externa e nem interna, pois estávamos todos num deck do lado de fora do ambiente, embora a parte que lhe cabia no latifúndio daquele imóvel histórico cravado na história do bairro com nome intrigante (Fundinho, vê que nome primo) era no limite da cobertura que protegia as amigas da chuva. Pimba! O senhor começou a sentir a chuva e se pôs a movimentar puxando mesas e cadeiras para o nosso lado. Olhei para um lado havia uma cerca metálica que nos encerrava naquele lado do latifúndio, do outro lado mesas que espacialmente opostas a nós demarcavam a passagem dos garçons (igual ao filme "Dogville", onde não tem paredes mas todo mundo sabe bem as marcações espaciais, e sobretudo as marcações simbólicas).

E naquele imbróglio de mexe cadeira, puxa mesa, chuva cai, música toca alta, amigas riem e todo um misto de bar mineiro, eis que o senhor começa a nos pedir educadamente: "Vocês podem chegar a mesa para lá porque estamos molhando aqui?". Pensei: Uai, podemos, mas como? (questão indispensável para um cérebro que anda imerso em escrita acadêmica: o tal do 'Como". O ponto de partida para sapiar se alguma coisa funciona mesmo: Como! Se alguém algum dia colocar para você a questão do "Como", pode saber, essa pessoa não é do Bem, simplesmente porque ela é do Mundo, e quem é do mundo quer saber dos modos como as coisas se dão em vida, não para além da vida. Ops, aqui é texto de facebook e não de...). Para lá o latifúndio tem uma cerca metálica, para lá tem outras mesas ocupadas. Ingenuamente eu e outra amiga levantamos pensando algo assim: "uai, o show está atrasado, esse moço "Bem" intencionado está nos chegando para lá onde não há espaço, vamos levantar e ir embora".

Levantamos e perdidas no espaço, naquele espaço já molhado com a chuva, ficamos igual saco no ar, voando sem "quês" e "por quês"; mas aí o senhor "bem" intencionado chegou numa das amigas, uma amiga cuja dose tem variantes. O moço chegou dizendo: "Vai, arrasta sua cadeira para lá porque estamos molhando aqui". A amiga categórica (sei lá se na vibe do Kant): "Por que?". Respondeu o moço já em tom não cordial: "Dá para você se mexer porque estamos molhando aqui?!" Vixe, eu que era saco voando no ar sem nada entender, tive naquele momento a resposta para a minha questão do "Como". Disse a amiga: "Não! Não dá para eu me mexer. Aqui não há espaço para mudar mesas e cadeiras. Eu não vou me molhar para que o senhor não se molhe. Ali é o espaço do garçom passar, se eu arrastar vai atrapalhá-lo". O senhor cuja cordialidade tinha ficado nos idos de 2004 (conjecturo que após os primeiros meses de governo federal quando a esperança venceu o medo) soltou o mais objetivo signo de um período duro na história brasileira: "Foda-se o garçom!".

Ops... nessa hora eu já não era saco voando sem rumo, o "Como" já tinha respostas, as caipirinhas sem açúcar ficaram azedas, a água com limão ficou tóxica, a cerveja esquentou, a chuva aumentou, o show não começou e o jiló amargou. Discussões para cá, discussões para lá e entre os LIMITES e os SIGNOS me camuflei num cantinho da mesa, sentindo a chuva molhar minhas costas e em silêncio fui tomando goles de água e notas de alguns caracteres:

- o senhor era homem e falava umas coisas do discurso histórico de esquerda.

- nossa mesa era predominantemente de mulheres e falava de sei lá o quê, mas não de discurso representativo de uma tal coletividade, nem tampouco de altruísmos sociais forjados em projetos discursivos cujas práticas imperam repetição do mesmo.

- o garçom não sabia nada que estava acontecendo, mas naquele instante tornara-se algo que passava rasgando como limite numa discussão, cuja culpa era da chuva.

No fim disso tudo, umas amigas foram embora sem ver o show, outras como eu permaneceram mesmo que molhando. O senhor ficou resmungando ao lado, no mesmo instante na nossa mesa também tiveram resmungos e assim a noite continuou. Os músicos entraram para tocar as clássicas do Clube da Esquina e aos coros entoamos: "E lá se vai mais um dia".

O limite não era da cobertura anti-chuva, nem do açúcar ausente na caiprinha, o limite mesmo foi estreitado na contramão de uma miscelânea ao escutar alguém acusar minha amiga de curtir o show sem se preocupar com o outro enquanto este se molhava na chuva.

Ora, pois, eu quero ter convicção de que a frase do senhor de "bem" sobre o garçom tenha sido um equívoco da chuva cujas palavras não saíram de uma boca humana, assim como as armas do golpe político não tenham saído da própria esquerda. Quase ao final do show foi entoado o coro: "Fora Temer" e seguimos aparentemente felizes para 2018. Assim, vi as amplitudes que os limites diversos nos dão serem estreitadas e os convenientes serem imperados como clichês: "Pensar no outro". Nessa noite vi também que independente do lado, se você está tomando sua bebida e a chuva lhe incomoda, o outro jamais será um "garçom". Palavra que talvez nunca para mim, até então, tenha sido tão originalmente francesa.

Isso foi dia 30/12/2017 numa terra cujo nome histórico é também Sertão da Farinha Podre.

19 de outubro de 2017

cafés e chás, comidas almoçadas na mesa em conjunto, comidas e leituras no universo da cozinha sempre são remédios para mim. Cada casa tem sua variação, mas eu acho que como as bibliotecas, os cinemas, as praças e os parques salvam as cidades, a cozinha, o banheiro e as portas salvam as casas. Acho que por isso nunca gostei muito da casa onde cozinha e sala são conjugadas, sobretudo quando há uma televisão. A sala para minha memória mineira é de conversas de recepção, enquanto a cozinha tem conversas cozidas ou em vias de cozimento. Peut-être uma antropofagia no interior das casas, os próprios moradores se cozinhando para se degustarem em conversas que nem os divãs suportariam.

Carol Gomes
O cinema morre, pois, de sua mediocridade quantitativa. Há, todavia, uma razão ainda mais importante: a arte das massas, a abordagem das massas, que não devia separar-se de uma acessão das massas ao título de verdadeiro sujeito, caiu na propaganda e na manipulação de Estado, numa espécie de fascismo que aliava Hitler a Hollywood, Hollywood a Hitler. O autômato espiritual tornou-se o homem fascista. Como diz Serge Daney, o que colocou em questão todo o cinema da image-movimento foram "as grandes encenações políticas, as propagandas de Estado que se tornaram quadros vivos, as primeiras manipulações humanas de massa", e o que veio atrás, os campos de concentração(1). Foi isso o que soou o fim das ambições do "antigo cinema": não foi, não foi só, a mediocridade e a vulgaridade da produção corrente, foi antes Leni Riefensthal, que não era medíocre. não houve desvio, alienação, numa arte das massas que a imagem-movimento teria primeiramente fundado, ao contrário, já de início a imagem-movimento esteve ligada à organização de guerra, à propaganda de Estado, ao fascismo comum, histórica e essencialmente(2). Somadas, as duas razões, a mediocridade dos produtos, o fascismo da produção, podem explicar muitas coisas. Por um breve momento, Artaud "acredita" no cinema, e multiplica declarações que aprecem coincidir com as de Eisenstein ou de Gance, arte nova, pensamento novo. Mas logo desiste: "O mundo imbecil das imagens preso como que em miríades de retinas nunca fará perfeita a imagem que foi possível fazer dele. A poesia do que poderia ser, e não é do cinema que se deve esperar..."(3).

[DELEUZE in Cinema 2- Imagem-tempo, p. 199]

(1) Serge Daney, La rampe, p. 172.
(2) Paul Virilio, Guerre et cinéma I, Logistique de la perception, Cahiers du cinéma - Editions de l'Etoile.
(3) Artaud, La vieillesse précoce du cinéma, Oeuvres complètes, Gallimard, III, p. 99. (texto de ruptura de Artaud com o cinema, 1933).


22 de julho de 2017

Não era você aquele menino
nem menino, nem homem
mesmo que os cabelos fossem os seus
mesmo que a idade fosse a sua
e também os sonhos
e também os medos

Não era para você aquela música
nem a música, nem o instante
mesmo que os aprendizados fossem seus
mesmo que a vida seja sua
e também as angústias
e também as passagens

Não éramos nós aquela dupla
nem o pai e o filho
nem os irmãos mais velho e mais novo
mesmo que as histórias sejam nossas
mesmo que as vontades sejam minhas
e também as expectativas
e também as esperanças

Não eram nossas aquelas coisas
nem música, nem hang
mesmo que a melodia falasse de nós
mesmo que a sensação chegasse a nós
e também os refúgios
e também os desejos

Nada daquilo era seu
tudo daquilo era meu
todo o instante enquadrando nossa vida
distantes no tempo e íntimos na memória
nem mesmo lágrimas soluçadas
nem mesmo instantes mal montados
serão,
nossos.

(para o meu amigo Davi)
[21/julho/2017 Paris-Les Halles]

10 de maio de 2017

só muito

tenho família, tenho afeto
tenho emprego, tenho casa
tenho carro, tenho profissão
tenho amigos, tenho saúde
tenho coração, tenho cadela
tenho pinturas, tenho fotografias
tenho geladeiras, tenho poltrona
tenho sonhos, tenho história
tenho biblioteca, tenho blog
tenho ordinateur, tenho smartphone
tenho comida sem ser comida
e no imbróglio disso tudo
tenho tido muito ela
sozinhas
eu e ela
fêmea solidão.

[poeminha de pausa de biblioteca]
10/mai/17 villejuif-fr-mediathèque

30 de abril de 2017

meu comentário ao Bel,
porque agora eu quero tudo outra vez.

seu eu tivesse técnica dos traços, em frações de segundos desenharia uma estrada ladeada de caatinga com o sol nascendo de todos lados. Cada sol um sol sendo único como sol. Na multiplicidade dos horizontes você viria caminhando contraluz solar... andante, poetizante e cantante das canções que marcaram a passagem da minha adolescência para a vida adulta.

justamente nos idos de 2004, marchando por Fortaleza, mineira, estudante universitária de filosofia, sem 1 real no bolso, comendo jambo caído dos enormes pés das calçadas públicas. Imigrante inversa do sudeste ao nordeste em busca dos conselhos populares da capital cearense que recentemente elegia Luizianne para prefeitura, conheci um cinema de fundo de quintal à beira da linha do metrô no bairro Damas e na parede de projeção cujo filme exibido era "Deus e o diabo na terra do sol", topei com a frase mais revolucionária que pudesse me bombardear: "Amar e mudar as coisas me interessa mais". Desde então a vida dura em Fortaleza passou a ter cores e poesia.

"Essa lembrança é o quadro que dói mais. Ainda somos os mesmos e vivemos. Apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos".

Bel, meu amigo Bel... que o outono movimente o vento e as folhas que levarão pelos ares sua poesia.

Coração sentido, triste! Bel, Bel.



27 de abril de 2017

minha mãe e ela nem sabe que tenho a mão dela comigo todos os dias.

"batatinha quando nasce esparrama pelo chão, mamãezinha quando dorme põe a mão no coração." (Minha mãe recitava esse versinho para mim milhões de vezes e me dava nó tentando entender a relação da batatinha com a minha mãe dormir e morria de medo dela virar batatinha. Foi um conflito a infância inteira. Ufa! Sobrevivi meio desconexa mas sobrevivi às batatinhas).

(Depois de marmanja as batatinhas voltaram, agora como batatas, embora também em letras literárias: "Aos vencedores as batatas". Continuei com o nó depois de um professor de metafísica sugerir a leitura do Quincas Borba. Ufa! Quase sobrevivi, porque em fato nunca mais tive sossego ao encontrar o casório safado que pula cerca para fazer bobageira: filosofia e literatura).

No imbróglio que é viver reduzi o consumo de batatas por excesso de agrotóxicos, e, filosoficamente tenho pensado que as batatas, agora incluídas como da terra no meu vocabulário, tem se esparramado sobremaneira nas antigas dúvidas de infância que nunca me deixaram.

e a gente vai indo, andante e caminhante, para onde?! para casa cuja arquitetura não tem projeto embora tenha um pé direito altíssimo que não sufoca.

(escutar Chopin enquanto estuda é sei lá um método complexo).


14 de abril de 2017

bordas flutuantes entre o cosmo e o interno

nas capitais as gírias me incomodam. nos interiores os regionalismos me assustam.
nas capitais as pessoas se comem, me repulsa. nos interiores se devoram, me sufocam.
nas capitais o tempo voa me faltando. no interior ele dilata me transbordando.
no cosmopolitismo a diversidade me diminui enquanto exalta o outro. no interior a tradição me anula diante do poderio dos costumes.
nas cidade grande as edificações me engolem. na cidade pequena elas se mostram mas não me convidam.
nas capitais por onde andei a comida era farta e tantos eram os caminhos que me emagreciam. nos interiores eram certas as culinárias, embora se faziam segredos familiares que não os meus.
de tudo aos meus limites serei atenta, embora e certa de que os zelos a mim escapam tanto quanto os espaços que me limitam.

(divagações de um almoço em Villejuif, 14/avril/17)

29 de janeiro de 2017

Dança, Cinema e Teatro e os falsos movimentos de relação

uma coreografia assinada por australianos. um filme assinado por estadunidenses. um teatro assinado por franceses.

Ler textos que tratam das relações diversas na arte é perturbante, especialmente porque há o aspecto da escolha narrativa do autor que implica seleção dos termos e as próprias adjetivações, e há também os distanciamentos espacial e temporal do leitor em relação à produção artística (embora no cinema isso me pareça menos conflitante). Quando da leitura, dão-se dois movimentos, se não distintos em natureza, ao menos distintos em processamento: um entendimento das palavras na relação entre leitor e autor, e ainda, do leitor para com a obra numa reconstrução da obra descrita no texto.

Pois bem, esse duplo movimento reflexivo se pôs a mim numa bagunça inesperada mais ou menos assim.

Vamos ao teatro?! Vamos. Onde? Ver o que? Quanto?

Fomos com quase nenhuma especulação sobre o espetáculo. Talvez tenhamos questionado mais o valor das entradas do que o conteúdo da sessão.

Sentada no assento já marcado no bilhete, avistei três telões na sala. Pensei?! Vai rolar aquelas montagens com vídeo. Li um resumo do espetáculo e vi que a proposta tratava de um diálogo entre dança e cinema a partir do filme de 1950, D.O.A. Pois bem, que haveria de vir?! Não seria possível que uma fotocópia de cenas do filme?! Não, não.

Iniciou o espetáculo, os telões acenderam e o filme começou a rolar desde as legendas iniciais. Sim, os filmes nessa época exibiam os créditos logo no início. Fui surpreendida ao deslocar o olhar de um dos telões que estava fixado na parte superior direita em direção ao palco. Magnífico! O ator se movimentava num plano contraluz cuja silhueta ia de encontro (isso, em choque mesmo) a uma tela com projeção de um quadrado branco que se abria como a tela mesma do cinema. O que exclamei de magnífico foi justamente o falso movimento real do dançarino que se mexia sem se deslocar continuamente no chão (no espaço). Pimba, um falso raccord na dança?! Falso porque o quadrado branco ao abrir engolia o dançarino que mexendo o corpo (estilo a dança clássica do Michael Jackson) forjava uma caminhada tal qual a cena do filme, menos o corpo se deslocava no espaço e mais o corpo era engolido pela tela à sua frente, cuja relação era dada a partir da contraluz.

Ora, no primeiro momento pareceu uma fotocópia (adoro essa palavra brega), talvez uma transliteração, mas não, acho que pela primeira vez vivi um diálogo entre dança e cinema. Eu olhava para o telão e a cena cinematográfica estava lá. Olhava para o palco e a dança estava lá, ambas tratando de um mesmo plano, mas com movimentos distintos. Imagens em movimento, ou melhor, imagens em movimentos. Definitivamente não consigo selecionar termos que tornem possível uma plástica descritiva.

E assim o espetáculo continuou, o filme rodou do seu minuto inicial ao minuto final projetado dos três telões fixados nas laterais e um à frente, todos na parte superior. No palco, os dançarinos deslocavam no chão ora fragmentando os movimentos corporais ora continuamente sem pausas, eram pernas, braços, colunas fluidas. Um trem de doido! Nos telões e no palco as mesmas cenas movimentadamente distintas. Como pode?!

O simulacro se deu tão propositadamente flagrante que num instante de beijo na cena do filme, os dançarinos mostravam-se olhando para o telão como que forjando que estavam fotocopiando tudo, embora imediatamente giravam os corpos no ritmo da mudança de corte da cena cinematográfica, de modo que o beijo que desenrolava harmonicamente no filme, não se encaixava entre o dançarino e a dançarina, pois ambos estavam num corte frontal para o palco olhando justamente para o telão.
O corte frontal que muitas vezes é privilegiado no cinema, foi propositadamente privilegiado na coreografia. Ora, certamente uma crítica direta de que os movimentos em dança e em cinema podem se encontrar, mas dentre das suas temporalidades. Um corte frontal cinematográfico em primeiro plano pode me dizer da preocupação do ator ao descobrir que havia sido envenenado, uma imagem-afecção, mas em dança, um corte frontal se me pareceu pertinente justamente no corpo circulante da dançarina que girava e girava como uma vertigem diante da descoberta do veneno.

O espetáculo foi aberto com o dançarino caminhando falsamente e foi fechado com as dançarinas caminhando em lateral também falsamente.

O filme começou com um ator caminhando verdadeiramente dentro de um plano médio e terminou com o mesmo ator caído no chão. Tudo dentro de uma tela.

Pois bem, saí pensativa e só depois de 1 dia do espetáculo me dei conta de possíveis perguntas: haveria movimento verdadeiro e falso nessa relação entre dança e cinema?

E a propósito: não havíamos comprado entradas para o teatro?

O duplo movimento de um texto na relação autor e leitor parece só ter ganhado mais algumas pernas.

[Dança: Movie Picture 2015, Lucy Guerin]
[Cinema: D.O.A. 1950, Rudolph Maté]
[Fotos: encontradas no Google]




21 de junho de 2016

A cinefilia uberlandense

Pasmem: Uberlândia, em 2016, tem 14 cineclubes em atividade com programação gratuita. Além das redes comerciais de exibição de filmes nos shoppings, a programação de cinema tem ocupado semanalmente anfiteatros e salas equipadas para os cinéfilos. O mês de junho marca o encerramento do CineClube Cultura cujas exibições acontecem aos sábados e domingos na Oficina Cultural há 30 anos. O motivo desse encerramento não desejado pelos cinéfilos é a aposentadoria do responsável pelo cineclube, Paulo Torres que, durante os 30 anos, se dedicou à curadoria da programação, bem como à organização das exibições e divulgação dos filmes.

Além do CineClube Cultura, há o CineClube UFU, CineSesc, CineMUnA, Ciclo de Cinema Argentino, Cinema Francês Allons au Cinéma, Conhecer Para Nunca Mais na Casa da Cultura, CineDALAU, CineCACOS, CineContracampo, EmCena, Cinema e Educação, Cine Filô, Cinemark Clássicos e outros projetos, sendo que as exibições acontecem com periodicidade semanal, quinzenal e mensal, com horários que vão da tarde à noite.

Um singelo rascunho mapeou a atuação dos cineclubes e de alguns projetos de exibição de filmes, sabendo que esse rascunho não inclui as escolas, universidades particulares, associações, sindicatos, ONGs e outras organizações que certamente também têm projetos de exibição de filmes. No mês de maio, foram quase 30 exibições de filmes nos cineclubes, filmes clássicos e modernos, internacionais e brasileiros. Dia 20/5, estive na sessão do CineClube UFU que exibiu o filme americano “Her” de 2014. Saí boaquiaberta da sessão pelo seguinte motivo: o anfiteatro que caberia algo entre 80 pessoas sentadas estava lotado e muitas sentaram no chão pelo corredor e à frente da primeira fileira.

Ora, a cinefilia imersa na própria história do cinema não abdica da sua participação no processo de urbanidade de um local enquanto prática de várias roupagens, em especial a roupagem dos que saem de casa e sentando ao lado de desconhecidos mergulham na diegese cinematográfica. Essa cinefilia do sair de casa é marcada pelo encontro anônimo, embora recorrente, entre os que se veem nas sessões dos filmes e que se quer se apresentam.Uma cinefilia que a cada filme pensa e repensa os modos de vida, das questões políticas às questões estéticas e técnicas dos filmes, de modo a reforçar o papel importante dos espaços de exibição de filmes numa cidade.

Uma cidade sem cinefilia é uma cidade que desconhece a relação arte x indústria, o quatrilho: imagem-tempo-movimento-som. Uma cidade órfã de cinefilia é uma cidade cujo roteiro foi castrado pela ignorância diante da grandeza de filmes que inclusive antecipam a mundanidade ordinária da vida, em outros termos leríamos ao vento: a vida imita a arte! Juízo bem conhecido dos cinéfilos, posto que diariamente se vê o quão a vida tem imitado filmes da tão recém-nascida sétima arte.

Uberlândia não é órfã de cinefilia, mas também não tem sido digna de uma cinefilia que vai resistindo sem incentivos financeiros e apoios públicos e privados. Aos que sempre dizem com peito cheio: Uberlândia não tem programação boa. Lamentável que não consigam perceber que a cinefilia é menos dos holofotes e mais dos resistentes, não por acaso uma sessão de filme tendo apenas um espectador acontece e ainda sim é uma sessão de cinema.

carol gomes
[texto publicado no Jornal Correios de Uberlândia em 14/jun/16 como opinião do leitor]
[http://www.correiodeuberlandia.com.br/colunas/opiniaodoleitor/a-cinefilia-uberlandense/]

20 de junho de 2016

a lua passa, a gente passa com ela... na rodovia tudo passa, das terras aos céus

tempo para nada, trabalha mais que formiga, mas vai lá, hoje o outono partiu e o inverno chegou, trazendo a estação dos leoninos e das luas cheias amarelas.

por sinal, andante na BR365 hoje quando do encontro do que estava indo (o outono) com o que estava vindo (o inverno), presenciei a lua cheia, a lua cheia desse entre outono-inverno, e de fato foi um portal tão soluçante que encostei o andante três vezes na beira da rodovia para tentar fotografar, mas sorrateiramente, impetuosamente, a lua não se deixou fotografar. Diversos fatores impossibilitaram, um conjunto, um misto afirmativo pelo não-fotografar, do equipamento impróprio, passando pela pouca luz natural à distância espacial entre chão e céu.

nessa hora veio à mente duas produções artísticas: uma literária do Murilo Rubião com sua "Bárbara" e a lua; e outra, poesia musicada do Nelson Cavaquinho com sua "A flor e o espinho".

dizia-me portanto hoje a lua, num diálogo tão próximo que se distanciava quanto mais eu acelerava para alcançar uma tríade ficcional: a lua, a estrada e eu.

Murilo colocou Bárbara fixada na lua e o Nelson me dizia que o Sol não podia viver perto da Lua... entendi tudo, a lua de hoje era amarela como um sol e portanto era portal porque era passagem sem jamais o ser, quanto mais eu desejasse a lua, menos próxima dela eu estaria... vai entender: sol e lua.

reflexões de uma 365 no cerrado mineiro!

Parte II
sabia que tinha um trem ontem. Sabia nada, moço! O dia foi mais curto porque o sol quis ficar de namorico com a lua que reinou magistralmente noite a dentro. Foi solstício de inverno. A lua ficou amarela porque o sol estava à espreita, corria atrás e não alcançava, igual cachorro pequeno quando vê cadela grande no cio, tadinhos, dela e dele.
o fato é que nessa labuta do sol pela lua, abriu-se um portal... quem estava adiante?! O inverno. Justamente. Esse que dizem trazer os casulos, as reflexões, os diálogos para dentro.

Enquanto o sol ficava de namorico com a lua, os fluxos passavam, aí estavam os tempos das mudanças, das aberturas e dos encontros.

Autoajuda?! Que nada, tem metáfora nenhuma nisso e nem calmante para desacelerar, é a vida mesma tecendo existência, objetivamente, sem demoras e sem pressas... num tempo que sei lá qual, só sei que o dia e a noite de ontem foram portais. Passando era mudança, atravessando é agora casulo. Ui!


carol gomes

2 de maio de 2016

cena vital de um cinema de trabalhador

Maio entrou dúbio entre o frio e o calor. O cerrado soltou a mão do azul-sertão e agarrou a quentura de um laranja-terra.

7h30 e ponto. Não, 8h20, sem falta. Melhor, 9h, 9 horas na sua porta. Leva água, frutas e protetor solar. Beleza! Era noite e construíamos o cenário de despedida desse abril esfaqueante para a manhã do domingo que chegava.

Havia um extraordinário para o dia 1º de maio de 2016. Ora, a essa altura dos marcadores já estávamos atualizados com a arquitetura política da aliança militar com o tio sam do golpe de 64 e sua familiaridade com 2016; já estávamos enxugados das lágrimas do 17 de abril e a vergonha dos deputados com a estéril justificativa de pedaladas para impeachment; já estávamos inacreditados com a encenação escancarada de banditismo do Cunha; já estávamos superando a perplexidade com o ostracismo do STF; já estávamos boquiabertos com tantos ataques aniquiladores à autonomia e liberdade de um povo; mas, jamais aquietados e entregues ao ressentimento para com a vida.

Seguimos rumo à ocupação urbana Elísson Pietro, conhecida como a ocupação do Glória. Uma ocupação cujas forças estão claramente dadas: de um lado os interesses de uma especulação imobiliária, de outro, a resistência e a urgente necessidade das famílias por moradia. Os terrenos sob tutela federal da universidade e ao largo dos dias milhares de pessoas embaixo de telhas de amianto quentes e poeira impositiva. Eis o Glória. Eis a glória de crianças e mulheres encontradas no propósito da moradia. À ocupação do Glória nos cabe insistentemente a pergunta: Qual a glória desse espaço e desses corpos?

Partimos da glória, não, do Glória, para outra ocupação urbana, o Maná. Puxadinho do bairro Morumbi, sim, esse bairro socialmente tão polêmico e tão presente na história oficial pouco contada da cidade de Uberlândia.

Chegamos ao Maná no bater dos ponteiros do almoço. No Glória eram 4 bolos de aniversário, cachorro-quente, pula-pula, palco e bandas. No Maná, barraquinha de espeto, pula-pula e algodão doce. As fontes de financiamento, muito simples, o aniversariante do dia: o trabalhador.
Andamos um pouco aqui, acolá, e recebemos a pista de que umas três casas abaixo estava nossa cineasta. Calmamente íamos chegando, os passos levantando poeira e ao ser avistada, o grito saiu!
Poucos metros seguidos nos passos em poeira presenciei a cena mais linda do 1º de maio.

Indubitavelmente uma cena que como acontecimento irrompeu numa explosão não ordinária. Esse acontecimento não se fez de um nada, muito antes, se fez de um tudo; se fez das tantas lutas de anos marcando os 1ºs de maio. Essa cena se fez dos diversos e das centenas produções do cinema brasileiro filmando os sertões, a miséria, as cores da pobreza. Não bastasse, essa cena se fez num passado tão comum aos trabalhadores e simultaneamente presente por sua ausência de precedentes.

Eu vi, nós vimos, eles viram... um cinema poeira no écran-papel craft, cujo público eram meninos de uma ocupação urbana, sentados no chão e com o algodão doce esperavam o filme rodar. A sala não tinha parede, era uma varanda que à noite por certo virava um bar. A tela recebia duas claridades, a do sol de meio dia e a do projetor de uma animação cujo título não por acaso nos ironizava em pleno dia do trabalhador: O Emprego.

Poucos minutos ali, diante daquela cena, ao lado dos amigos, senti que a vida vai se costurando de retalho em retalho, já dizia o Bergson do Deleuze no seu Matéria e Memória: “não basta recortar, é preciso saber costurar”. Como e para que costurar aquele retalho, aquele pedaço de vida tão intensa que silenciosamente passou em minutos uma história do cinema brasileiro, histórias de um país loucamente em transe que por vezes somos arrebatados por um choro de conflito entre o que se mostra e o que se haveria de ser.

Uma fome urgente [e todas as fomes talvez sejam urgentes, a nossa naquele momento e a fome dos meninos pelo filme] me inquietou e do cinema poeira saímos em busca de almoço.

Eu que em outros momentos havia sentido algo familiar diante das revoluções de uma cozinha que ocupa os espaços públicos no fluxo das memórias populares, não me contive e saí, desembestada e faminta. A fome alarmou menos pelo bater do horário e mais por ter mergulhado minutos numa memória excessivamente presente e gigantesca que minhas forças físicas não correspondiam à magnitude anônima e acontecimental daquele instante.

Seriam oportunos parágrafos imensos descrevendo e analisando, discursivamente, de mãos dadas ao imaginário, a uma narrativa consciente transbordando em afetos, a cena dos meninos sentados de frente para a tela de papel craft. Mas não, sem esses parágrafos, nem tampouco vou me deter à descrição da camiseta de uns dos garotos que trazia: “Medicina UFU”. Essa cena correu em reunião de tempos de lutas inglórias, ali estavam pessoas da luta, as pessoas que tem por monumento “pedras pisadas do cais”, e ali estavam não por evocação mística, muito antes e também, estavam nas transversais da luz como resistência. É isso, os meninos estavam como resistentes vivos em dia de aniversário do trabalhador, rompendo com um modelo de exclusão, dos cinemas, dos shoppings, das praças da região central, dos parques naturais, dos clubes de recreação.

A cena mais linda do 1º de maio não haveria de ser com surpresa, ela foi um corriqueiro, um aparente insignificante, um desviante banal, e por isso mesmo foi tão tudo e tão magna, porque em corpos infantis com olhares e audição infantis, toda uma história de luta passou, como velocidade da luz, e que como energia vital, todo um passado proletário.


[imagem: 1/maio/16, Uberlândia MG, Ocupação Urbana Maná, região leste onde fica o grande Morumbi]


Carol Gomes


22 de março de 2016

Outono 2016 com seu excesso de pouca luz
ou
Aos vencedores, os maracujás!

Outono é a estação da passagem, do excesso de luz do verão aos equinócios que preparam o inverno. Pois bem, outono nos presenteia com o momento da colheita, com o amarelar e a queda das folhas, marca um movimento de transição na mecânica da natureza. Num bailar anfitrião as folhas cedem espaço para outras que virão. Há na filosofia uma tradição que labuta durante séculos para consolidar o casamento entre razão e verdade sob o madrinhamento da luz. Ora, como na expressão “à luz da verdade”. Estará a verdade comprometida durante os outonos com a sua pouca incidência de luz?!

Brasil 2016, 20 de março. Um verão findando com a luz artificializada por uma tarefa empenhada em trazer os anos de ditadura. Pois bem, se no outono lidamos com as mãos para o cultivo, estarrecidos e em choque, nos deparamos com indivíduos maquinando com as próprias mãos o retorno do 31 de março de 1964 para além dos arquivos de dores inadequados, indesejados e inaceitáveis.

A imagem é tal qual um estranho que bate à sua porta, vai entrando sem convite, traz um prato mascarado com frutas brilhosas, leite vistoso, quitandas macias, mas que se denuncia com o exalar de um cheiro não correspondente. O prato é artificial. O prato é todo industrializado, as frutas com venenos químicos, o leite artificial à base de conservantes e as quitandas com melhoradores e químicas para uma fermentação apressada e atropelada. Ora, nem de perto se trata do cultivo de outonos fortalecedores, outonos que nos preparam para mudanças e passagens, dos pensamentos íntimos e silenciosos às conversas durante o preparo da comida.

Dia 04 de março um país amanhece 6:00 surpreendido por uma condução coercitiva. Estavam levando o findar do verão. Cruelmente utilizaram a umidade das fortes chuvas para fixar arbitrariamente um marco na história do fluxo das temperaturas. Fabularam, com pouca competência criativa, um depoimento frio, distante de sensações quentes das chuvas de verão. A luz das 6:00 da manhã não trazia a iluminação natural, era marcada por sombras duras, com refletores falhos que não difundiam intensidades. Trata em fato de uma luz de estúdio que correspondia com fidelidade o insalubre gosto do prato sobre a mesa que o estranho entregava em casa.

Em 1964 essa cena aconteceu assim: o estranho adentrava a casa armado e te obrigava a comer o prato envenenado. Em 2016, o estranho retorna, dessa vez bate na porta, desarmado e bem vestido num terno, traz na mão o prato e puxando uma mala traz também televisão, jornais, rádios, internet com campanha de ódio e violência. Embora os anos sejam outros e a chegada do estranho seja aparentemente diferente, o objetivo se mantinha: seduzir para uma refeição artificial e sem sabor, cujo fim utilitário é exclusivo: o aniquilamento da vida.

A luz utilizada recorrentemente na filosofia em busca do verdadeiro, nesse outono, nos prova, metodicamente, que a depender do tipo de luz, a verdade também se veste de falácia, donde se apresentam proposições corretas ou quase corretas, entretanto as mesmas não correspondem aos fatos e se relacionadas denunciam o impossível. Pois foi com esses ventos que o outono nos chegou, provando que uma mentira repetida tantas vezes em tão pouco tempo assume corpo de verdade.
Quem há de negar que alguém bem vestido, vistoso e brilhoso é capaz de mentir, de manipular e enganar?!

O outono, para além de ser a estação do cultivo, dos ventos, da pouca luz e do cair das folhas, tem também seus frutos de época, e pudera, frutos coloridos e naturalmente belos. O maracujá que duplamente esbanja beleza, da casca sutilmente amarela ao amarelo intenso da polpa. O caqui, vermelho-laranja macio. Goiaba, figo, maçã, coco e tangerina que se somam ao desfile das cores até o chegar do inverno. Ora, falacioso o outono ao nos oferecer frutos tão belos com a incidência de pouca luz?!

Numa magia dada à percepção humana, o outono contrapõe a história oficial da filosofia travestindo a relação entre luz e verdade. De março a junho, no sul do globo, experimentamos um embate criativo das forças com a luz. É nesse período em que as notas científicas são tomadas diante da necessidade do sobreviver, não menos, é nesse mesmo período em que seres diversos se esticam, se dobram e desdobram para alcançarem no limite do esforço a quantidade da luz que lhes chega, bem certo que em menor escalada que na estação anterior. Assim, o outono é a estação em que se dança belos sambas ao som de um único pandeiro e nos embebedamos ao som de uma harmônica com seus sopros livres de paleta em paleta.

Mais que a beleza aguerrida das forças de outono diante da pouca luz, é nessa estação que compreendemos, num mistério infértil à razão mãe da verdade, que nas longas noites e nos dias curtos, aguçamos os sentidos e nos lançamos a percepções profundas desobedientes aos regramentos, únicos e exclusivos, do raciocínio. A pouca luz, provoca sobremaneira as saídas e entradas do corpo, que iguala pensar e sentir num sobressalto em busca da pouca luz do dia que se alonga em temperatura para as noites.

As folhas que caem, os ventos que passam rasantes, os cultivos diferentes dos frutos e de tantos seres, não são falaciosos, diferente do prato envenenado com a luz artificial do 04 de março de 2016, o outono é a estação que lança condições para um excesso de pouca luz. Esse excesso é o tomar a luz menos por sua quantidade (as horas de sol do dia) e mais por sua intensidade (a energia da onda física de cada raio de luz que chega, em outros termos, a temperatura da luz que chegando durante o dia se estende noite adentro).

O excesso de pouca luz é o movimento que o outono revela e nos força a criar, a produzir mais vida, tal qual as operações necessárias da natureza. O prato artificial e envenenado do estranho que adentrara 64 e que retorna em 2016, não o consumiremos iludidos por discursos armados e conservantes químicos. Esse mesmo prato será atravessado e destruído justamente pelas moléculas de uma pouca luz dos dias de março, pouca mas intensa, quente, comprida.

Não havendo a verdade filha da luz somada em horas, erguemos verdades pensadas pelo corpo no pulular dos termômetros. Não se trata do prato com veneno, falamos dos pratos de época, de cores das estações, de forças que se lançam por necessidades de vida.

Outono recebe o fenômeno das galinhas que diminuem postura dos ovos. Sim, é real a conversa de que as galinhas botam menos na quaresma. Ora, desavisados os teóricos que zombam das putas botadeiras do quintal, as galinhas não botam como no verão em decorrência da incidência de pouca luz e da troca das penas, e é justamente no findar desse período do galinheiro que o outono chega combativo, trazendo passagem que com novas asas excede num amarelo quente dos ovos que virão, pois as mesmas galinhas que sentiram a chegada do outono e por tal diminuíram a postura dos ovos, diante do limite, excedem a pouca luz dos meses seguintes ao retomar com adaptações vitais a postura farta de ovos.

Aos manipuladores de luz artificial, aviso: outono chegou e com ele o excesso de pouca luz e a prova, esteticamente, necessária de que as verdades são encontros criados por necessidades de vida.

Aos de vida minguada bem vestidos nos ternos com seus pratos envenenados lançamos nossos maracujás, nossas maçãs, nossas folhas caídas e nossas lutas.

Aos vencedores que somos, os maracujás!

NãoVaiTerGolpe!

Uberlândia MG, 21 de março de 2016.
Carol Gomes